Povo como ator político

Lula acaba de herdar de FHC um dilúvio. E um Noé não será suficiente para pilotar a Arca salvadora. Precisa-se de coajuvantes que com ele assumam a reinvenção do Brasil. É a razão primeira da repactuação social proposta, inteligentemente, por Lula. Povo e elites são convocados a fazer a sua parte. Especialmente as elites que sempre enfeudaram o Estado para realizarem seu projeto histórico. Na verdade, elas nunca incluiram o povo, antes o temiam, mantendo-o como massa de manobra, à margem ou na exclusão. No velho pacto, a democracia era reduzida: o povo tinha apenas o direito de, a cada quatro anos, eleger o seu ditador e para isso era induzido. Uma vez eleito, o ditador esquecia o povo. A política era feita exclusivamente com as elites, nos palácios, nos ministérios e nos aparelhos burocráticos. O povo traído suspirava: quem dos nossos, um dia, vai nos representar?

Agora com Lula, o povo se sente, finalmente, representado. Como tal é trazido para o centro da arena política a fim de participar ativamente. Depois de decênios de construção da cidadania a partir de baixo, sente-se preparado para co-plasmar o destino do novo Brasil. Criou-se uma consciência nacional forte. Na verdade, o povo, ao votar em Lula, quis votar em si mesmo. Fez um ato de fé em sua capacidade e mostrou um gesto de esperança em seu próprio sonho. O slogan de campanha "Agora é Lula" significa:"Agora é a nossa vez; não tem mais para ninguém, especialmente não tem para aqueles que nos mantinham, minorenes, na pobreza política; agora confiamos em nós mesmos". Pois, foi exatamente isso que se ouvia no clamor do povo em Caetés, terra natal de Lula e no dia da posse em Brasiília: "Lula, você é um dos nossos". "Finalmente, Lula, você nos levou até lá". Demorou 502 anos mas aconteceu.

A participação popular significa vida ou morte do projeto Lula. Quando falamos aqui em povo não é no sentido da retórica populista, mas no sentido da análise social, como aquela porção da população que antes era massa e que através de nova consciência, organização e um mínimo de projeto, conseguiu se articular e acumular força social. Essa porção assume a causa da outra que ainda não conseguiu se organizar e então a representa. Todos esses agora comparecem como atores políticos. O novo Estado assume o projeto popular e cria condições de sua implementação. O Estado não é mais o grande entrave, mas o aliado e o instrumento das mudanças necessárias. Por isso, o povo, como ator, deve ser escutado. As soluções que encontrou para seus problemas, ao longo dos séculos, importa serem valorizadas. Urge a troca de saberes, entre o saber popular e o saber letrado, ambos em benefício de um crescimento includente, pela primeira vez, benéfico para todos.

O povo deve querer as mudanças, caso contrário nunca acontecerão. E ele as quis. Isso não é voluntarismo. Este quer porque quer, sem se perguntar pelas possibilidades reais. O querer de agora vem carregado de reflexão acumulada, paciência histórica e atenção às condições existentes ou a criar. E o povo as viu existentes com Lula. A organicidade entre movimento popular e sua expressão política no PT e em Lula é condição de viabilidade para o projeto inovador. Romper esse laço significa perder força e abortar o sonho acalentado por tantos e por tanto tempo.

* Leonardo Boff é teólogo e escritor, autor de mais de 60 livros entre os quais Do iceberg à arca de Noé, Rio 2002.

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