Um cadáver domina a sociedade - o cadáver do trabalho. Todas as potências do globo estão coligadas em defesa desta dominação: o Papa e o Banco Mundial, Tony Blair e Jörg Haider, sindicatos e empresários, ecologistas alemães e socialistas franceses. Todos eles só têm uma palavra na boca: trabalho, trabalho, trabalho.
Quem ainda não desaprendeu de pensar reconhece sem dificuldade a inconsistência desta posição. Porque a sociedade dominada pelo trabalho não vive uma crise transitória, antes está chegada ao seu limite último. Na sequência da revolução microelectrónica, a produção de riqueza desligou-se cada vez mais da utilização da força de trabalho humano - numa escala até há poucas décadas apenas imaginável na ficção científica. Ninguém pode afirmar com seriedade que este processo voltará a parar, e muito menos que possa ser invertido. A venda dessa mercadoria que é a força de trabalho será no século XXI tão promissora como foi no século XX a venda de diligências. Porém, nesta sociedade, quem não consegue vender a sua força de trabalho torna-se «supérfluo» e é atirado para a lixeira social.
Uma sociedade centrada na abstracção irracional do trabalho desenvolve necessariamente a tendência para o apartheid social, se a venda eficaz dessa mercadoria que é a força de trabalho deixa de ser a regra para passar a ser a excepção. Há muito que esta lógica é secretamente aceite e até apoiada activamente pela totalidade das facções integrantes do imenso campo do trabalho, que abrange todas as tendências políticas. Já não discutem a questão de saber se cada vez maiores camadas da população são empurradas para a marginalização e excluídas de qualquer participação social, mas apenas como impor esta selecção.
Qualquer trabalho é melhor do que nenhum.
- Bill Clinton, 1998.
Nenhum trabalho é tão duro como não ter trabalho
- Tema de uma exposição de cartazes do Organismo Federal de Coordenação das Iniciativas dos Desempregados da Alemanha, 1998.
O trabalho cívico deve ser recompensado, mas não simplesmente remunerado […]. Quem presta trabalho cívico libertase também do estigma do desemprego e da assistência social.
- Ulrich Beck, A Alma da Democracia, 1997.
As facções antineoliberais do campo de trabalho, que é a sociedade no seu conjunto, podem porventura não gostar muito desta perspectiva, mas são precisamente aquelas que mais fervorosamente defendem a ideia de que um homem sem trabalho não é um homem. Nostalgicamente agarradas à concepção fordista do pós-guerra, assente no trabalho de massas, pensam apenas em ressuscitar esses tempos idos da sociedade do trabalho. O Estado deveria voltar a encarregar-se daquilo que, em dado momento, o mercado não é capaz de fazer.
O novo fanatismo do trabalho, com o qual esta sociedade reage à morte do seu ídolo, é a consequência lógica e o estádio final de uma longa história. Desde a época da Reforma, todas as forças dirigentes da modernização ocidental pregaram a santidade do trabalho. Sobretudo nos últimos cento e cinquenta anos, todas as teorias sociais e correntes políticas foram dominadas pela ideia do trabalho. Socialistas e conservadores, democratas e fascistas, combateram entre si de toda a maneira e feitio, mas apesar do ódio mortal que votaram uns aos outros, sempre sacrificaram em comum ao ídolo do trabalho. «L'Oisif ira loger ailleurs» («O ocioso irá viver para outro lado»), dizia o texto do hino da Internacional dos trabalhadores - o eco macabro dessas palavras foi a divisa «Arbeit macht frei» («O trabalho liberta»), exibida por cima do portão de Auschwitz. As democracias pluralistas do pós-guerra fizeram todas as suas juras em nome da ditadura perpétua do trabalho.
Não há, em rigor, qualquer identidade entre o trabalho e o facto de os homens transformarem a natureza e se relacionarem uns com os outros em determinadas actividades. Enquanto existirem seres humanos, eles hão-de construir casas, fabricar roupas, produzir alimentos e muitas outras coisas, hão-de educar os filhos, escrever livros, discutir assuntos, construir jardins, compor música e tanto mais. Esta é uma verdade banal e evidente. O que não é evidente é que a actividade humana em si, o puro «dispêndio de força de trabalho», sem que se leve em consideração o respectivo conteúdo e independentemente das necessidades e da vontade dos envolvidos, se torne num princípio abstracto que domina as relações sociais.
A esquerda política sempre adorou o trabalho com particular fervor. Não só elevou o trabalho ao estatuto de essência do Homem, como produziu a mistificação de transformá-lo num princípio pretensamente oposto ao capital. Na sua perspectiva, o escândalo não é o trabalho, mas sim a exploração do trabalho pelo capital. Por isso, o programa de todos os «partidos dos trabalhadores» sempre foi somente «libertar o trabalho», mas não libertar do trabalho. Ora, o antagonismo social entre capital e trabalho é uma mera contradição de interesses distintos no interior da finalidade autotélica do capitalismo (embora o poder de cada uma das partes seja muito diferente). A luta de classes era a forma de expressão desses interesses antagónicos no terreno social comum do sistema de produção de mercadorias. Fazia parte da dinâmica interna da valorização do capital. Quer a luta fosse por salários, por direitos, por condições de trabalho, ou por postos de trabalho, o seu pressuposto cego continuava sempre a ser a engrenagem dominante com os seus princípios irracionais.
Mesmo que a lógica do trabalho e da sua metamorfose em matéria-dinheiro pressione nesse sentido, nem todos os domínios da sociedade, nem todas as actividades efectivamente necessárias se deixam comprimir nesta esfera do tempo abstracto. Por isso, em conjunto com a esfera «separada» do trabalho, e até certo ponto como seu reverso, surgiu também a esfera do lar, da família e da intimidade.
Nesse domínio, definido como «feminino», cabem as muitas e repetitivas actividades da vida do dia-a-dia, que quando muito só excepcionalmente podem ser transformadas em dinheiro: desde limpar a casa até cozinhar, passando pela educação dos filhos e pelo cuidado dos idosos, até ao «trabalho do amor» da típica dona de casa ideal, que retempera o seu marido trabalhador, quando chega esgotado a casa, e lhe «recarrega as energias» afectivas. A esfera da intimidade, enquanto reverso do trabalho, é portanto declarada pela ideologia burguesa da família como esfera da «vida própria» - embora, na realidade, seja a maior parte das vezes apenas um inferno na intimidade.
A identidade entre trabalho e ausência de autodeterminação demonstra-se, não apenas factual, mas também conceptualmente. Não há muitos séculos, a conexão entre o trabalho e a coerção social estava inteiramente presente na consciência das pessoas. Na maior parte das línguas europeias, o conceito «trabalho» refere-se originariamente apenas à actividade do homem sem autodeterminação, do indivíduo dependente, do servo ou escravo. No espaço linguístico alemão, «Arbeit» significava o trabalho servil de uma criança órfã ou abandonada, e por isso caída na servidão. No latim, «laborare» significava algo como «cambalear sob uma carga pesada», e em sentido geral designava o sofrimento e o vexame do escravo. As palavras românicas «trabalho», «travail», «trabajo», etc., derivam do latim «tripalium», uma espécie de jugo utilizado para torturar e castigar escravos e outros indivíduos destituídos de liberdade.
O bárbaro é preguiçoso e diferencia-se do homem cultivado na medida em que se compraz no seu embrutecimento, pois a formação prática consiste justamente no hábito e necessidade da ocupação.
- Georg W. F. Hegel
No fundo, sente-se agora […] que um tal trabalho é a melhor polícia, que retém cada indivíduo pelo freio e que sabe impedir com firmeza o desenvolvimento da razão, do desejo e do prazer da independência. Pois faz despender enorme quantidade de energia nervosa, e subtrai essa energia à reflexão, à meditação, ao sonho, à inquietação, ao amor e ao ódio.
- Friedrich Nietzsche
O movimento operário clássico, que só entrou em ascensão muito depois do declínio das antigas revoltas sociais, já não lutava contra as exigências do trabalho; pelo contrário, desenvolveu precisamente uma hiperidentificação com aquilo que lhe parecia ser inevitável. Interessava-se apenas por «direitos» e correcções no seio da própria sociedade do trabalho, cujas coerções já tinha amplamente interiorizado. Em vez de criticar radicalmente a transformação da energia humana em dinheiro enquanto finalidade autotélica irracional, assumiu ele mesmo «o ponto de vista do trabalho» e interpretou a valorização do capital como um facto positivo em si mesmo e, portanto, neutro.
Assim, o movimento operário assumiu, Ã sua maneira, a herança do absolutismo, do protestantismo e do Iluminismo burguês. A infelicidade do trabalho foi convertida numa falsificação: o orgulho do trabalhador, que vinha redefinir em termos de «direito do homem» a autodomesticação do indivíduo como material humano do ídolo moderno.
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