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Logo que o trabalho, na sua forma imediata, deixa de ser a grande fonte de riqueza, o tempo de trabalho deixa necessariamente de ser a respectiva medida, e portanto deixa de ser o valor de troca [a medida] do valor de uso. [...] Em consequência, a produção fundada no valor de troca desmoronase e o próprio processo imediato de produção material despojase da sua forma mesquinha e contraditória.
- Karl Marx
Esboço da Crítica da Economia Política, 1857/58.
A consciência social dominante engana-se sistematicamente a si mesma sobre a verdadeira situação da sociedade do trabalho. As regiões em colapso são ideologicamente excomungadas, as estatísticas relativas ao mercado de trabalho são descaradamente falsificadas, as formas de pauperização são dissimuladas pelos media. A simulação é o traço característico mais central do capitalismo em crise. Isto vale também para a própria economia. Se, pelo menos nos países ocidentais que constituem o núcleo do sistema, subsistiu até agora a aparência de que o capital podia acumular-se mesmo sem trabalho e que a forma pura do dinheiro sem substância podia garantir o contínuo crescimento do valor, tal aparência ficava a dever-se a um processo de simulação nos mercados financeiros. À imagem e semelhança da simulação do trabalho através das medidas coercivas da administração democrática do trabalho, formou-se uma simulação da valorização do capital através da desarticulação especulativa entre o sistema de crédito e os mercados bolsistas da economia real.
O consumo de trabalho presente é substituído pelo recurso ao consumo de trabalho futuro, que nunca chegará a realizar-se. Trata-se, de certo modo, de uma acumulação de capital num fictício «futuro do conjuntivo». O capital-dinheiro, que já não pode ser reinvestido de forma rentável na economia real, e que por isso não pode absorver mais trabalho, tem de se deslocar em força para os mercados financeiros.
Já o impulso fordista da valorização do capital, nos tempos do «milagre económico», após a Segunda Guerra Mundial, estava longe de ser totalmente auto-sustentável. O Estado contraiu créditos em quantidades até então desconhecidas, muito para além das suas receitas fiscais, porque as condições estruturais da sociedade do trabalho já não podiam ser financiadas de outra maneira. O Estado empenhou assim todas as suas efectivas receitas futuras. Desta maneira surgiu, por um lado, uma possibilidade de investimento financeiro para o capital-dinheiro «excedente» - emprestava-se ao Estado a troco de juros. O Estado pagava os juros à custa de novos empréstimos, reinjectando novamente o dinheiro emprestado no circuito económico. Por outro lado, o Estado financiava as despesas sociais e os investimentos infra-estruturais, criando assim uma procura que, em termos capitalistas, era necessariamente artificial, uma vez que não tinha a cobertura de qualquer dispêndio de trabalho produtivo. O boom fordista foi assim ampliado para além daquele que seria o seu verdadeiro alcance, por via de um processo em que a sociedade do trabalho procedia à sangria do seu próprio futuro.
Este elemento simulativo do processo - só aparentemente ainda intacto - de valorização do capital chegou ao seu limite último juntamente com o endividamento estatal. As «crises de dívida» dos orçamentos estatais, não só no Terceiro Mundo, mas também nos países desenvolvidos, deixaram de permitir que a expansão continuasse a realizar-se por este processo. Foi esse o fundamento objectivo da campanha vitoriosa da desregulamentação neoliberal, que, segundo a respectiva ideologia, deveria ir de par com uma redução drástica da quota do Estado no produto social. Na realidade, a desregulamentação e o desmantelamento das responsabilidades do Estado foram anulados pelos custos da crise, ainda que sob a forma de custos da repressão e da simulação estatais. Deste modo, são muitos os Estados em que a quota do Estado no produto efectivamente aumentou.
Mas a acumulação do capital já não pode continuar a ser simulada através do endividamento do Estado. E é por isso que, desde os anos oitenta, a criação complementar de capital fictício se transfere para os mercados bolsistas. Neles, há muito que não se trata de obter dividendos, ou seja, a distribuição de lucros da produção real, mas apenas de obter ganhos de cotação pelo aumento especulativo do valor dos títulos de propriedade até números de grandeza astronómica. A relação entre a economia real e o movimento especulativo dos mercados financeiros foi virada de pernas para o ar. Já não é o aumento especulativo das cotações a antecipar a expansão da economia real, mas pelo contrário é a criação fictícia de valor, sempre em alta, que simula uma acumulação real que simplesmente deixou de existir.
O ídolo do trabalho está clinicamente morto, mas recebe respiração artificial através da expansão aparentemente autonomizada dos mercados financeiros. As empresas industriais obtêm ganhos que já não resultam da produção e da venda de bens reais, que há muito se tornaram empreendimentos votados ao insucesso, mas sim da especulação em acções e divisas levada a cabo pelos seus «habilidosos» departamentos financeiros. Os orçamentos públicos apresentam receitas que não resultam de impostos ou de empréstimos, mas da participação zelosa da administração financeira no jogo de azar dos mercados. E os orçamentos privados, que viram as receitas reais provenientes dos salários e honorários reduzir-se drasticamente, só conseguem manter um nível elevado de consumo à custa de ganhos na bolsa. Surge assim uma nova forma de procura artificial que, por sua vez, arrasta consigo uma produção real e receitas fiscais reais «sem chão debaixo dos pés».
Desta maneira, a crise económica mundial vai sendo adiada pelo processo especulativo; mas, como o aumento fictício do valor dos títulos de propriedade só pode ser a antecipação da futura utilização real de trabalho (numa escala astronómica) - que nunca virá a acontecer -, então o embuste objectivado terá forçosamente de se desmascarar após um certo tempo de incubação. O colapso dos «emerging markets» na Ã?sia, na América Latina e no Leste da Europa foi só um aperitivo. Será apenas uma questão de tempo, e entrarão igualmente em colapso os mercados financeiros dos centros capitalistas nos Estados Unidos, na União Europeia e no Japão.
Este contexto é percebido de uma forma totalmente distorcida pela consciência fetichizada da sociedade do trabalho e em particular pelos tradicionais «críticos do capitalismo», à esquerda e à direita. Fixados no fantasma do trabalho, nobilitado enquanto condição supra-histórica e positiva da existência social, confundem sistematicamente causa e efeito. O adiamento temporário da crise através da expansão especulativa dos mercados financeiros aparece, assim, de forma invertida, como suposta causa da crise. A «maldade dos especuladores» - na expressão vulgarmente usada, mais ou menos mesclada de pânico - levá-los-ia a arruinar completamente a bela sociedade do trabalho, gastando de forma extravagante o «bom dinheiro», que existe «de sobra», em vez de o investirem de forma respeitável e sólida em maravilhosos «postos de trabalho» para que uma humanidade de hilotas imbecilizados pelo ídolo pudesse continuar a ter o seu «pleno emprego».
Não entra nestas cabeças este facto simples: não foi de forma nenhuma a especulação que fez parar os investimentos reais, porque estes já tinham deixado de ser rentáveis em consequência da terceira revolução industrial. O disparo especulativo só pode ser um sintoma disso mesmo. O próprio dinheiro, que aparentemente circula em quantidades infinitas, já não é «bom», mesmo em sentido capitalista, mas apenas simples «ar quente» com que foi sendo empolada a bolha especulativa. Qualquer tentativa de drenar um pouco esta bolha, recorrendo a projectos tributários mais ou menos imaginativos («Taxa Tobin», etc.) para reconduzir novamente o capital-dinheiro à s rodas alegadamente «correctas» e reais da engrenagem da sociedade do trabalho, só pode acabar por levar ao seu mais rápido rebentamento.
Em vez de se compreender que todos nos tornaremos inexoravelmente não rentáveis e que, por isso, é o próprio critério da rentabilidade que é preciso atacar, como princípio obsoleto que é, e, juntamente com ele, o respectivo fundamento na sociedade do trabalho…, em vez disso, demonizam-se os «especuladores». Esta imagem barata do inimigo é cultivada em uníssono por radicais de direita e independentes de esquerda, por honestos funcionários sindicais e keynesianos nostálgicos, por teólogos sociais e apresentadores de «talk shows», ou seja, por todos os apóstolos do «trabalho honrado». Poucos estão conscientes de que daí até Ã reactivação da loucura anti-semita vai apenas um pequeno passo. O apelo ao capital «criativo» e de sangue nacional contra o capital-dinheiro, «judeu», internacional e «usurário», arrisca-se a ser a última palavra da «esquerda dos postos de trabalho» intelectualmente desorientada. Que era a última palavra da «direita dos postos de trabalho», desde sempre racista, anti-semita e antiamericana, isso já se sabia.



