Voltar ao indice do Manifesto contra o trabalho.
Que o trabalho em si mesmo - não apenas nas condições actuais, mas em geral, na medida em que a sua finalidade é o mero crescimento da riqueza -, que o trabalho, afirmo eu, é em si mesmo prejudicial e ruinoso, é coisa que decorre, sem que o nosso economista [Adam Smith] o saiba, das suas próprias análises
-Karl Marx
Manuscritos EconómicoFilosóficos, 1844
Os adversários do trabalho serão acusados de não passarem de fantasistas. A história teria comprovado que uma sociedade não pode funcionar se não se basear nos princípios do trabalho, da coerção produtiva, da concorrência em economia de mercado e do egoísmo individual. Quereis portanto afirmar, vós, apologistas do status quo dominante, que a produção capitalista de mercadorias veio de facto proporcionar uma vida minimamente aceitável para a maioria dos homens? Dizeis que o sistema «funciona», justamente quando o crescimento vertiginoso das forças produtivas expulsa da humanidade milhões de indivíduos que podem ficar felizes por sobreviverem nas lixeiras? Quando milhões de outros, que mal suportam a vida frenética a que os obriga a ditadura do trabalho, caem no isolamento e na solidão, narcotizam a inteligência sem qualquer prazer e adoecem física e psiquicamente? Quando o mundo é transformado num deserto, apenas para que com o dinheiro se possa fazer mais dinheiro? Pois bem. Esse é realmente o modo como o vosso grandioso sistema do trabalho «funciona». Mas nós recusamo-nos a realizar tais façanhas!
A vossa auto-satisfação baseia-se na vossa ignorância e na fraqueza da vossa memória. A única justificação que encontrais para os vossos crimes actuais e futuros é a situação do mundo, que resulta dos vossos crimes passados. Haveis esquecido e recalcado quantos massacres estatais foram necessários para meter à força nos cérebros humanos a mentira da vossa «lei natural», segundo a qual é uma felicidade estar «ocupado» em actividades determinadas por outrem e deixar sugar a energia vital em benefício da abstracta finalidade autotélica do ídolo do vosso sistema.
Para fazer com que a humanidade interiorizasse a ditadura do trabalho e do egoísmo, foi preciso começar por exterminar as instituições auto-organizativas e de cooperação autodeterminada típicas das antigas sociedades agrárias. Talvez tenha sido realizado um trabalho perfeito. Não somos exageradamente optimistas. Não podemos saber se será bem sucedida a libertação desta forma de vida condicionada. Está em aberto a questão de saber se a derrocada do sistema do trabalho conduzirá Ã superação da respectiva loucura ou ao fim da civilização.
Argumentareis que, com uma eventual superação da propriedade privada e da obrigação de ganhar dinheiro, cessaria toda a actividade e instalar-se-ia a preguiça generalizada. Confessais, portanto, que todo o vosso sistema «natural» se baseia em pura coerção? E que, por isso, temeis a preguiça como pecado mortal contra o espírito do ídolo trabalho? Os inimigos do trabalho, porém, não têm nada contra a preguiça. Um dos nossos objectivos principais é a reconstrução da cultura do ócio, que antigamente todas as sociedades conheciam e que foi destruída para impor uma produção sem descanso e sem sentido. Por isso, em primeiro lugar, os adversários do trabalho irão paralisar, sem os substituírem, os inúmeros ramos de produção que apenas servem para manter a alucinada finalidade autotélica do sistema produtor de mercadorias e que não levam em conta os danos que causam.
Não nos referimos apenas aos sectores de trabalho que são claramente perigosos para a comunidade, como a indústria automóvel, a indústria de armamento e a indústria nuclear; falamos também da produção das inúmeras próteses de sentido, dos ridículos objectos de pseudodiversão destinados a simular um sentido substitutivo para a vida desperdiçada, imposta aos homens da sociedade do trabalho. Terá também de desaparecer a monstruosa quantidade de actividades que só existem porque há toda uma multidão de produtos que é preciso fazer passar por esse autêntico buraco de agulha que é a forma do dinheiro e a mediação do mercado. Ou achais que continuarão a ser necessários contabilistas e orçamentistas, especialistas de marketing e vendedores, mediadores e publicitários, a partir do momento em que as coisas forem sendo produzidas conforme as necessidades e quando os indivíduos se limitarem a tomar para si aquilo de que precisam? E qual a utilidade dos funcionários de finanças e dos polícias, dos assistentes sociais e dos administradores da pobreza, quando já não houver propriedade privada para proteger, quando não houver miséria social para administrar, nem for preciso domesticar os indivíduos para a alienação das coerções do sistema?
Já estamos a ouvir o grito: Ai, tantos postos de trabalho! Mas, com certeza. Calculai calmamente quanto tempo de vida a humanidade rouba diariamente a si mesma só para acumular «trabalho morto», para administrar os indivíduos e deitar umas gotas de óleo na engrenagem do sistema dominante. Quanto tempo poderíamos todos nós passar ao sol, em vez de nos esfolarmos por coisas sobre cujo carácter grotesco, repressivo e destrutivo já se encheram bibliotecas inteiras. Mas não tenhais medo. Não acabarão de modo algum todas as actividades, quando a coerção do trabalho desaparecer. Serão, sim, as actividades a mudar de carácter a partir do momento em que já não estiverem confinadas à esfera do tempo abstracto, linear, e da respectiva finalidade autotélica e sem sentido, passando cada actividade particular, pelo contrário, a poder seguir o seu próprio ritmo, individualmente variável e integrado em contextos de vida pessoais; e nas formas maiores de organização da produção serão os indivíduos a determinar eles próprios os ritmos, em vez de se submeterem à s determinações da ditadura da valorização do capital na lógica da economia empresarial. Que razão há para que alguém se deixe acossar pelas exigências insolentes de uma concorrência imposta? É tempo de redescobrir a lentidão.
Obviamente, também não desaparecerão as actividades da economia doméstica ou da prestação de cuidados individualizados, tarefas que a sociedade do trabalho escondeu, segregou e definiu como «femininas». A preparação de alimentos é tão pouco automatizável como a mudança de fraldas a um bebé. Quando, juntamente com o trabalho, desaparecer a separação das esferas sociais, estas actividades necessárias passarão a estar em condições de surgir à luz da organização social consciente e, portanto, deixarão de estar submetidas ao regime de atribuição de tarefas em função dos sexos. Perdem o seu carácter repressivo logo que deixarem de submeter a si próprias os indivíduos e passarem a ser realizadas tanto por homens como por mulheres, conforme as circunstâncias e as necessidades.
Não dizemos que todas as actividades se tornarão um prazer. Umas mais, outras menos. Naturalmente, há sempre algo que necessariamente tem de ser feito. Mas quem há-de assustar-se com tal coisa, se a vida não for consumida nisso? E haverá sempre muito mais coisas que podem ser feitas por livre escolha. Porque faz falta a actividade, tal como faz falta o ócio. Ora, o trabalho nunca conseguiu suprir esta falta. Limitou-se a instrumentalizá-la no seu interesse, a sugá-la vampirescamente.
Os inimigos do trabalho não são defensores fanáticos nem de um activismo cego, nem de um igualmente cego quietismo. Ócio, actividades necessárias e actividades livremente escolhidas devem ser harmonizados numa relação com sentido, orientada pelas necessidades e pelos contextos da vida. Desde que subtraídas à s coerções materiais do trabalho, tipicamente capitalistas, as modernas forças produtivas podem ampliar gigantescamente o tempo livre em benefício de todos. Para quê passar horas e horas, dia após dia, nas fábricas e nos escritórios, se é possível pôr autómatos de todos os tipos a realizar a maior parte dessas actividades? Para quê fazer suar centenas de corpos humanos, quando são suficientes umas quantas ceifeiras mecânicas? Para quê gastar o espírito numa tarefa rotineira que um computador facilmente pode realizar?



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