A política neoliberal que foi se difundindo por todo o mundo a partir de fins dos anos 70 veio acompanhada pela difusão de uma nova ideologia, onde os antigos valores que constituíam a base da sociedade foram substituídos por novos. Novas idéias tomaram o lugar das antigas.
A base que sustentava a coesão social e que fornecia os motivos para as pessoas se mobilizarem (o consenso moral) foi desmontada: a dignidade da pessoa humana, os direitos humanos, os direitos sociais. Vera Silva Telles vai falar de “encolhimento do horizonte de legimitidade dos direitos sociais” (1999). Tudo se reduz ao indivíduo e à sua competência. Cabe ao indivíduo prover a sua vida e as suas necessidades, ao Estado nada cabe e nada deve caber - isto seria “paternalismo”. A saúde deve ser obtida pelos recursos do indivíduo, por seu próprio esforço. Assim também a educação; o trabalho. A sociedade é um aglomerado de indivíduos. Como dizia Margaret Thatcher, “não existe sociedade, existem indivíduos” (cf. Bauman, 1999).
O trabalho tem estado no centro de profundas e radicais transformações provocadas pelo capitalismo no final do século passado e início deste novo milênio. O impacto da revolução tecnológica em curso tem sido tão grande que ainda estamos como que no meio do redemoinho por ela causado. Muitas idéias, pensamentos e práticas tidas como certas e que serviram de portos seguros para interpretar a realidade social e mais especificamente a realidade do mundo do trabalho, se esvaeceram. Os fenômenos do desemprego, da flexibilização, da desregulamentação e da precarização relacionados ao trabalho tomaram de assalto sociedades inteiras. Já não há um que possa se sentir seguro nesta nova sociedade que vai emergindo. O capitalismo parece mesmo ter feito desta situação de insegurança generalizada um princípio de organização social e do trabalho.
O trabalho é o foco central das reflexões de André Gorz. Ele vem acompanhando de perto as principais transformações que o trabalho vem sofrendo especialmente no último quartel do século XX. Gorz é um daqueles homens que aprendeu a transitar em diversas áreas do pensamento social (sociologia, filosofia, economia), o que lhe dá uma visão abrangente dos acontecimentos. Não se contenta com seguir caminhos já trilhados. Quando o faz é no sentido de caminhar para além, abrir novos atalhos, jogar novas luzes sobre temas antigos e novos, sempre para realizar aquilo que chama de “buscas de sentido”. Ou seja, não basta analisar a realidade, mas faz-se necessário realizar buscas de sentido para compreender a ação humana em cada momento da história.
O sistema pós-fordista de produção não mais se assenta sobre o tipo de trabalhador requerido pela organização do trabalho taylorista-fordista[20]. O novo trabalhador requerido pela empresa flexível deve ser basicamente polivalente, ter capacidade de trabalhar em equipe, estar apto a lidar com a fragmentação, ter capacidade de aceitar novos riscos e viver sob a égide dos “laços fracos” [21].
Como observa Gollain, a mudança é mais profunda, pois forçoso é constatar que a favor da rapidez das novas transformações atuais, a empresa e o assalariado estão em vias de desaparecer como entidades que podem facilmente ser identificadas e que as diversas estratégias de utilização da força de trabalho adotadas pelas empresas nos últimos anos questionam a clivagem tradicional entre assalariado e independente. [22]
As conseqüências tanto da revolução informacional, quanto da ditadura do sistema financeiro para a realidade do trabalho são profundas e dramáticas. As sociedades parecem estar mergulhando cada vez mais profundamente num futuro incerto e inseguro, ao menos para uma grande parcela de suas populações. Não por nada que o sociólogo alemão Ulrich Beck fala em “sociedade de risco”. A sociedade de risco não é uma sociedade das catástrofes. Caracteriza-se acima de tudo por “um desenvolvimento social no qual a expectativa do inesperado, a expectativa dos riscos possíveis domina cada vez mais a cena da nossa vida: riscos individuais e riscos coletivos” [27]. E destes riscos sequer o trabalho escapa.
Gorz usa dois conceitos que são importantes definir: “sociedade do trabalho” e “sociedade salarial”. Ele os usa como sinônimos. Refere-se a ambos como resultando num “modo específico de pertença social e um tipo específico de sociedade” [48]. São, portanto, criações humanas, situadas historicamente. Têm cerca de 150 anos de existência.
A sociedade do trabalho é, na visão de Gorz, aquela sociedade em que o trabalho, na sua forma emprego, aparece como fundamento de direitos e de cidadania. Na sociedade do trabalho, este é colocado no centro da sociedade como a ação social por excelência. Todas as dimensões sociais, jurídicas, políticas, econômicas passam inevitavelmente pelo trabalho. A sociedade se organiza a partir do trabalho.
O trabalho tornou-se, especialmente a partir do final do século XVII e princípio do século seguinte, aquilo que Dominique Méda denomina de “fato social total”. Em nossa sociedade o trabalho foi elevado a fator estruturante da organização econômica, política e social. “Ele estrutura não somente a nossa relação com o mundo, mas também as nossas relações sociais. Ele é a relação social fundamental. Está, além disso, no centro da visão de mundo que é a nossa [...]” [68]. O trabalho é a roda que gira a economia e a sociedade. Uma vez que o trabalho é colocado no centro da sociedade, essa passa a se identificar como sociedade do trabalho e na qual este é o seu fundamento.
Gorz parte da constatação de que historicamente o trabalho nem sempre foi aquilo que ele é hoje. O que nós nos acostumamos a chamar “‘trabalho’ é uma invenção da modernidade. A forma sob a qual o conhecemos, praticamos e o situamos no centro da vida individual e social, foi inventada, e em seguida generalizada com o industrialismo” [73]. A compreensão que dele temos e o lugar que lhe damos, são novos. Ele ocupou outro lugar em outras sociedades [74].
No entanto, para uma visão mais ampla e menos asfixiante da noção de trabalho um olhar de longo prazo pode ser útil. Gorz olha, particularmente, para a realidade e o significado desta realidade que denominamos trabalho entre os gregos.
Para Gorz a idéia moderna de trabalho é contemporânea do capitalismo industrial. A indústria, como modo de produção, ganha relevo apenas no século XVIII. Até aí a “produção material” não estava, em seu conjunto, regida pela racionalidade econômica [99]. Mas, vários fatores foram decisivos para que a economia e, particularmente, o trabalho, fossem submetidos à lógica da racionalidade econômica. Vejamos, a seguir, três desses fatores que contribuíram para evidenciar uma mudança de paradigma.
a) O trabalho como medida. Para Dominique Méda, a “Riqueza das Nações”, de Adam Smith, marca uma ruptura em relação ao contexto intelectual da época e constitui uma inversão na ordem dos valores. Até começos do século XVIII havia uma forte condenação da vontade de enriquecimento, e o trabalho, uma ausência completa nas obras dos intelectuais.
O século XVIII foi longe na concepção de trabalho ao caracterizá-lo como valor e fator de produção de riqueza e proporcionar, assim, os elementos estruturantes da nova natureza do trabalho, entendido modernamente como emprego. O século XIX, sobretudo, com Hegel e Marx, avança nesta concepção de trabalho, ao elevá-lo à essência mesma do homem. O século XIX termina com a evidência de que o homem não mais se autocompreende sem a referência ao trabalho. A realização do homem moderno depende grandemente da sua vinculação ao trabalho, uma vez que este passa a ser ao mesmo tempo fator de sobrevivência, de humanização, de integração social, de auto-estima e de utilidade social.
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