1.4 A crise da sociedade salarial

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Autor: André Langer.

Gorz usa dois conceitos que são importantes definir: “sociedade do trabalho” e “sociedade salarial”. Ele os usa como sinônimos. Refere-se a ambos como resultando num “modo específico de pertença social e um tipo específico de sociedade”[48]. São, portanto, criações humanas, situadas historicamente. Têm cerca de 150 anos de existência.

A sociedade do trabalho é, na visão de Gorz, aquela sociedade em que o trabalho, na sua forma emprego, aparece como fundamento de direitos e de cidadania. Na sociedade do trabalho, este é colocado no centro da sociedade como a ação social por excelência. Todas as dimensões sociais, jurídicas, políticas, econômicas passam inevitavelmente pelo trabalho. A sociedade se organiza a partir do trabalho.

A sociedade salarial, por sua vez, é aquela em que as pessoas são definidas e descritas na sua cidadania pelo trabalho assalariado que possuem[49]. O acento recai sobre o fato do assalariamento. Por ser um trabalho demandado pela sociedade, portanto, útil a ela, ele é pago. O pagamento (salário) é o reconhecimento por parte da sociedade dado ao trabalhador e o passaporte de pertença a esta sociedade também como consumidor.

Robert Castel também usa o termo “sociedade salarial”. A sociedade salarial coincide com o momento histórico em que a proporção dos assalariados na população ativa passa a representar a maior parte dessa população. E situa o ano de 1975 como o ano que marca a apoteose da sociedade salarial[50]. Daí para diante começa a declinar.

Na introdução a “Misères du présent. Richesse du possible”, Gorz afirma que a crise da sociedade salarial ou do trabalho consiste em que “um novo sistema tende a abolir massivamente o ‘trabalho’. Este sistema restaura as piores formas de dominação, de servidão, de exploração ao obrigar todos a lutar contra todos para obter esse ‘trabalho’ que ela aboliu”[51].

A figura do precário é, para Gorz, a figura emblemática do trabalhador do século XXI: “Nos sabemos, nos sentimos, nos apreendemos a cada um de nós como desempregados em potência, subempregados em potência, precários, temporários, de tempo parcial em potência”[52]. “A figura central e a condição ‘normal’, como tendência ao menos, não são mais a do ‘trabalhador’”, tal como foi compreendido ao longo dos últimos 150 anos. ‘Normal’ parece ser a figura do “precário que ora ‘trabalha’, ora não ‘trabalha’, que exerce de maneira descontínua múltiplos ofícios, dos quais nenhum é um ofício, que não tem profissão identificável e que tem como profissão a de não ter nenhuma”. E finaliza dizendo que “esta figura central do precário é a que se apresenta potencialmente como a nossa”[53].

Neste cenário econômico e político o trabalho tornou-se uma “mercadoria rara” e o “emprego, um privilégio”[54]. Por isso precioso, segundo a lógica econômica reinante. O capital já “não tem mais necessidade e terá cada vez menos necessidade do trabalho de todos”[55]. Por outro lado, a “ideologia do trabalho-valor”[56] nunca foi tão propalada e a sua necessidade tão exaltada. Mas,

convertido em algo precário, flexível, intermitente, com duração, horários e salários variáveis, o emprego deixa de integrar num coletivo, deixa de estruturar o tempo cotidiano, semanal, anual e as idades da vida, deixa de ser o alicerce sobre o qual cada um pode construir seu projeto de vida.[57]

Mas, neste contexto, como garantir que o trabalho continue sendo atrativo, estimulante para os trabalhadores? O capitalismo e a sociedade auto-regulada criam mecanismos para a incitação ao trabalho.

Conservar a idéia de uma contribuição e de uma retribuição proporcionais ao trabalho realizado, ao diploma, ao mérito, é guardar a idéia da incitação ao trabalho, de aguilhão individual, de interesse individual ou, o que dá no mesmo, do medo da fome. Se não houvesse mais o engodo do ganho, as pessoas não trabalhariam mais; é, pois, impossível de encarar a dissociação entre renda e trabalho realizado.[58]

O trabalho perde a sua centralidade. Tende a desaparecer. Mas, cuidado! Não é, porém, todo e qualquer trabalho que tende a desaparecer.

O trabalho que desaparece é o trabalho abstrato, o trabalho em si, mensurável, quantificável, separável da pessoa que o ‘oferece’, suscetível de ser comprado e vendido no ‘mercado de trabalho’, em resumo, o trabalho pelo qual se ganha dinheiro ou o trabalho-mercadoria, que foi inventado e imposto pela força e com grandes penúrias pelo capitalismo manufatureiro a partir do fim do século XVIII.[59]

Nossas sociedades chegam, assim, a um paradoxo: tornar atraente aquilo que tende a ser sempre mais escasso ou precário. Incitar ao trabalho para que não deixe de ser marginal na vida e no imaginário das pessoas. Fazer repousar sobre ele os direitos, a cidadania, o laço social.

É justamente aqui que se situa uma das rupturas fundamentais de Gorz a fim de superar a sociedade do trabalho ou a sociedade salarial. A ruptura tem um duplo vértice:

Primeiro: “trata-se de desconectar do ‘trabalho’ o direito a ter direitos e, sobretudo, o direito ao que é produzido e produzível sem trabalho, ou cada vez com menos trabalho”[60]. Ou seja, o ‘trabalho’ já não pode mais ser o fundamento de todos os direitos, tanto individuais quanto sociais. A equação da sociedade industrial trabalho/produção/salário caducou. Como afirma Aznar: “querer continuar a determinar o salário pela produção, a renda pelo tempo passado na produção é, então, uma noção absurda e, em certa medida, injusta. Querer continuar enquadrado pela lei do século passado (trabalho/produção/salário) é um nonsense econômico”[61].

Segundo: trata-se de fazer com que o ‘trabalho’ “perca seu lugar central na consciência, no pensamento, na imaginação de todos”[62]. Esta é uma aposta cultural e política. Cultural, porque envolve uma mudança das mentalidades. Política, porque se trata de “uma luta pelo poder”[63]. Em outras palavras, a saída da sociedade salarial implica numa visão mais ampla que a meramente econômica. Em outra passagem Gorz volta a este ponto: “O problema se situa no limite do cultural e do político. É preciso que as mentalidades mudem para que a economia e a sociedade possam mudar”[64].

Mas, as dificuldades de uma tal “mutação cultural” são enormes. Para Gorz se situam no âmbito do político, “no atraso da política a respeito da evolução das mentalidades”[65]. Está na dificuldade que a mentalidade política tem de superar o horizonte de que os direitos da pessoa não precisam necessariamente estar assentados no direito ao trabalho.

É indiscutível que, na sociedade industrial capitalista, o ‘trabalho’ tenha servido de grande instrumento jurídico e econômico de inserção das pessoas na sociedade. Atualmente, devido às mudanças ocorridas no mundo do trabalho por influência da revolução tecnológica em curso e da financeirização do capital, parece ter havido uma mudança de sinal. O trabalho deixa cada vez mais de ser fator de inclusão para sedimentar a exclusão e a desigualdade. O trabalho deixa de cumprir sua função na medida em que sua força é mais desestabilizadora e fonte de privilégios para uma pequena elite[66].

Assim, o desencanto com o trabalho aciona a necessidade de colocar em ação a “nossa capacidade de encantar outros espaços que não os da produção”[67]. Gorz acredita numa sociedade em que o trabalho pode voltar a assumir outras formas, mais ricas, mais plenas de sentido.

 

Notas

[47] Cf. LIPIETZ, Alain. La société en sablier: le partage du travail contre la déchirure sociale. Paris: La Découverte, 1998, p. 37-38.

[48] GORZ, 1997, p. 95.

[49] Cf. NEUTZLING, 2002, p. 37.

[50] Cf. CASTEL, 1998, p. 452.

[51] GORZ, 1997, p. 11.

[52] Ibid., p. 89.

[53] GORZ, 1997, p. 89-90. Cf. também GORZ, 1987, p. 89-90. Aí Gorz falava em “neoproletariado pós-industrial” referindo-se a esses trabalhadores precários, de tempo parcial.

[54] GORZ, 1997, p. 97.

[55] GORZ, loc. cit.

[56] Ibid. p. 98.

[57] GORZ , loc. cit.

[58] MÉDA, 1995, p. 182.

[59] GORZ, op. cit., p. 95.

[60] GORZ, 1997, p. 90-91. Cf. também a p. 11.

[61] AZNAR, Guy. Trabalhar menos para trabalharem todos. São Paulo: Scritta, 1995, p. 107.

[62] GORZ, 1997, p. 91.

[63] GORZ, loc. cit.

[64] Ibid., p. 101.

[65] Ibid., p. 108.

[66] Cf. GORZ, André. Métamorphoses du travail. Quête du sens.Paris: Galilée, 1988, a primeira parte ‘Métamorphoses du travail’.

[67] MÉDA, 1995, p. 309.

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