2.4 Da libertação no trabalho para a libertação do trabalho: a evolução de Gorz

Dominique Méda, com o intuito de diferenciar os debates sobre o trabalho divide os escritos sobre o trabalho em duas grandes correntes: a corrente essencialista e a corrente historicista[158]. Estas correntes são retomadas posteriormente por Françoise Gollain[159] e Neutzling[160]. As duas correntes têm em comum a referência de que há uma mutação do trabalho e de que a atual crise do trabalho é uma chance para instaurar uma ordem social melhor. Mas as referências comuns terminam por aqui. As diferenças entre as duas correntes se expressam basicamente na leitura diferenciada que fazem da crise e no modelo de cidadão-trabalhador[161].

A corrente essencialista

considera que uma liberação no trabalho é mais do que nunca possível graças às atuais rupturas, de natureza positiva, nas práticas de trabalho. Contra os defensores do fim de uma sociedade do trabalho e de um salário social, um certo número de autores responde que o trabalho permanece ainda hoje o principal provedor de identidade social. Disso decorre logicamente um apelo pelo alargamento da noção de trabalho.[162]

A corrente historicista, por sua vez, “defende o princípio de uma libertação do trabalho, mais do que nunca acessível em virtude das técnicas e do diagnóstico do ‘fim do trabalho’”[163]. Ao questionar as representações do trabalho forjadas na era industrial[164], essa corrente apela para uma tradição crítica que vai desde os gregos até Habermas, passando por Hannah Arendt[165].

Geralmente o pensador ou pensadora que pertence a uma dessas correntes não passa a defender em outro momento da sua vida a outra corrente. Há, pode-se dizer, uma “fidelidade partidária” não declarada. Até porque a visão que cada corrente tem do trabalho e da sociedade é politicamente cheia de conseqüências e teoricamente implica uma verdadeira “conversão” do pensamento.

Gorz é um desses raros pensadores que transitou de uma corrente à outra[166]. Até o final dos anos 1970, Gorz foi um ardoroso defensor da corrente essencialista. Mas, várias razões, como veremos mais adiante, fizeram com que se desiludisse com a concepção de trabalho, de sociedade e de mundo que alimentava até então. Podemos, assim, dividir o conjunto da obra intelectual de Gorz em duas fases diferentes.

A primeira fase vai dos primeiros escritos de Gorz até o final da década de 1970. Nesta primeira fase, a preocupação central de Gorz foi o problema da alienação, ainda que com aproximações diferenciadas ao longo desta fase. O próprio Gorz, falando dessa fase, afirma de si mesmo: “eu era, para dizer sumariamente, um teórico da alienação, isto é, da experiência que as ‘potências próprias do ser humano’, como chama Marx, se autonomizam em potências alheias e acabam por dominá-lo, subjugá-lo, destituí-lo de si mesmo”[167].

A seqüência das obras escritas durante esta fase revela uma evolução no tema. “Nessa época, a alienação é discutida, de um lado, como um problema do indivíduo, em sua relação com a história pregressa, com o corpo, com o meio ambiente e com a sociedade; de outro, como um problema sociológico, onde o foco da análise são as classes sociais”[168]. A alienação, para Gorz, não está restrita à esfera da produção; ela abrange também a esfera do consumo, de tal maneira que a alienação nunca pode ser eliminada em apenas uma dessas duas esferas. Apesar disso, a esfera da produção continua a ser o campo privilegiado para que a alienação seja eliminada[169]. O importante a reter aqui é que para Gorz a primazia atribuída à esfera da produção está relacionada ao apego ao chamado paradigma do trabalho. “Sua produção teórica desse período parece estar baseada no duplo pressuposto segundo o qual a sociedade pode ser vista através do modelo da fábrica e a classe operária é o único sujeito da transformação social revolucionária”[170]. É por essas razões que Gorz acreditava que a fábrica era o cenário para a luta contra o capital a fim de lhe arrancar o controle do processo de trabalho, mas também onde a superação da alienação poderia ter início. Em síntese, na concepção teórica de Gorz dessa época, a liberação se dava no e pelo trabalho[171]. Comungava com as idéias da corrente essencialista.

O final dos anos 1970 preparava, porém, surpresas. A recepção de “Adeus ao Proletariado”, lançado na França em 1980, causou furor e indignação, mas também admiração[172]. Este livro é testemunha de uma grande reviravolta no pensamento de Gorz. Ele abre a segundo fase do pensamento gorziano, ainda que se deva admitir, para ser rigorosamente correto, que alguns escritos da segunda metade dos anos 1970 já antecipam esta mudança de rota. No entanto, é com o livro acima mencionado que a nova concepção de Gorz vai se firmando definitivamente. Nessa época Gorz

abandona o modelo de sociedade unificada em torno da categoria trabalho e passa a postular um modelo de sociedade baseada em duas esferas diferenciadas e autônomas e no qual o trabalho não é mais uma categoria hegemônica, nem o proletariado o único sujeito capaz de liderar uma transformação social.[173]

Essa mudança no pensamento de Gorz é cheia de conseqüências econômicas, políticas e culturais. No nosso trabalho, aqui, nos interessa particularmente esta segunda fase devido à contribuição que a produção teórica de Gorz traz para se pensar inovadoramente o trabalho e sua organização e, por conseguinte, saídas audaciosas para a crise de trabalho que a nossa sociedade está vivendo. Por conseguir enxergar e fazer enxergar o trabalho com um olhar e um lugar diferentes, não mais a partir da fábrica e de suas necessidades, mas a partir da sociedade ou mais particularmente das necessidades de cada indivíduo, as reflexões de Gorz são, sem sombra de dúvida, polêmicas. Mas, exatamente pelo fato de serem polêmicas é que elas podem jogar nova luz sobre uma reflexão que às vezes se pauta mais por um pisar e repisar nos mesmos argumentos e que mais fazem olhar para trás, do que encarar de frente e com ousadia as chances que a presente crise nos oferece. Pois, como diz Gorz, a crise não tem como tarefa nos resignar e lastimar tempos idos, mas a de nos fazer perceber que é preciso ousar o Êxodo.

É preciso ousar querer o Êxodo da ‘sociedade do trabalho’: ela não existe mais e não voltará. É preciso querer a morte desta sociedade que agoniza, com o fim de que outra possa nasce sobre seus escombros. É preciso aprender a distinguir os contornos desta sociedade diferente detrás das resistências, das disfunções, dos becos sem saída dos quais está feito o presente.[174]

 

Notas

[158] MÉDA, 1995.

[159] GOLLAIN, 2000, p. 109-122.

[160] NEUTZLING, 2002, p. 61-62.

[161] Cf. GOLLAIN, 2000, p. 110.

[162] GOLLAIN, loc. cit.

[163] GOLLAIN, loc. cit.

[164] Cf. NEUTZLING, 2002, p. 61.

[165] Cf. GOLLAIN, op. cit., p. 110.

[166] No Brasil, um dos poucos a refletir sobre esta mudança no pensamento de Gorz é Josué Pereira da Silva, da UNICAMP. Cf. SILVA, Josué Pereira da. André Gorz: trabalho e política. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2002; _____. O “Adeus ao proletariado” de Gorz, vinte anos depois. Lua Nova, São Paulo, n. 48, p. 161-174, 1999b.

[167] GORZ. 2000a. In: GOLLAIN, 2000, p. 222.

[168] SILVA, 1999b, p. 163.

[169] Cf. Id., 2002, p. 27-28.

[170] SILVA, 2002, p. 28.

[171] Cf. SILVA, loc. cit.

[172] Cf. GORZ, A. Oficios del saber y del trabajo. Clarín, Buenos Aires, 21 fev. 1999b. Suplemento Cultura y Nación.

[173] SILVA, 1999b, p. 164.

[174] GORZ, André. Misères du présent. Richesse du possible. Paris: Galilée, 1997, p. 11.

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