Documentos en la categoría "Êxodo da sociedade salarial"

1. Pelo êxodo da sociedade salarial. A evolução do conceito de trabalho em André Gorz

O trabalho tem estado no centro de profundas e radicais transformações provocadas pelo capitalismo no final do século passado e início deste novo milênio. O impacto da revolução tecnológica em curso tem sido tão grande que ainda estamos como que no meio do redemoinho por ela causado. Muitas idéias, pensamentos e práticas tidas como certas e que serviram de portos seguros para interpretar a realidade social e mais especificamente a realidade do mundo do trabalho, se esvaeceram. Os fenômenos do desemprego, da flexibilização, da desregulamentação e da precarização relacionados ao trabalho tomaram de assalto sociedades inteiras. Já não há um que possa se sentir seguro nesta nova sociedade que vai emergindo. O capitalismo parece mesmo ter feito desta situação de insegurança generalizada um princípio de organização social e do trabalho.

1.1 A revolução tecnológica

O trabalho é o foco central das reflexões de André Gorz. Ele vem acompanhando de perto as principais transformações que o trabalho vem sofrendo especialmente no último quartel do século XX. Gorz é um daqueles homens que aprendeu a transitar em diversas áreas do pensamento social (sociologia, filosofia, economia), o que lhe dá uma visão abrangente dos acontecimentos. Não se contenta com seguir caminhos já trilhados. Quando o faz é no sentido de caminhar para além, abrir novos atalhos, jogar novas luzes sobre temas antigos e novos, sempre para realizar aquilo que chama de “buscas de sentido”. Ou seja, não basta analisar a realidade, mas faz-se necessário realizar buscas de sentido para compreender a ação humana em cada momento da história.

1.2 O trabalhador pós-fordista

O sistema pós-fordista de produção não mais se assenta sobre o tipo de trabalhador requerido pela organização do trabalho taylorista-fordista[20]. O novo trabalhador requerido pela empresa flexível deve ser basicamente polivalente, ter capacidade de trabalhar em equipe, estar apto a lidar com a fragmentação, ter capacidade de aceitar novos riscos e viver sob a égide dos “laços fracos” [21].

Como observa Gollain, a mudança é mais profunda, pois forçoso é constatar que a favor da rapidez das novas transformações atuais, a empresa e o assalariado estão em vias de desaparecer como entidades que podem facilmente ser identificadas e que as diversas estratégias de utilização da força de trabalho adotadas pelas empresas nos últimos anos questionam a clivagem tradicional entre assalariado e independente. [22]

1.3 A "Brasilianização" do mundo do trabalho

As conseqüências tanto da revolução informacional, quanto da ditadura do sistema financeiro para a realidade do trabalho são profundas e dramáticas. As sociedades parecem estar mergulhando cada vez mais profundamente num futuro incerto e inseguro, ao menos para uma grande parcela de suas populações. Não por nada que o sociólogo alemão Ulrich Beck fala em “sociedade de risco”. A sociedade de risco não é uma sociedade das catástrofes. Caracteriza-se acima de tudo por “um desenvolvimento social no qual a expectativa do inesperado, a expectativa dos riscos possíveis domina cada vez mais a cena da nossa vida: riscos individuais e riscos coletivos” [27]. E destes riscos sequer o trabalho escapa.

1.4 A crise da sociedade salarial

Gorz usa dois conceitos que são importantes definir: “sociedade do trabalho” e “sociedade salarial”. Ele os usa como sinônimos. Refere-se a ambos como resultando num “modo específico de pertença social e um tipo específico de sociedade” [48]. São, portanto, criações humanas, situadas historicamente. Têm cerca de 150 anos de existência.

A sociedade do trabalho é, na visão de Gorz, aquela sociedade em que o trabalho, na sua forma emprego, aparece como fundamento de direitos e de cidadania. Na sociedade do trabalho, este é colocado no centro da sociedade como a ação social por excelência. Todas as dimensões sociais, jurídicas, políticas, econômicas passam inevitavelmente pelo trabalho. A sociedade se organiza a partir do trabalho.

2. O conceito de trabalho em André Gorz

O trabalho tornou-se, especialmente a partir do final do século XVII e princípio do século seguinte, aquilo que Dominique Méda denomina de “fato social total”. Em nossa sociedade o trabalho foi elevado a fator estruturante da organização econômica, política e social. “Ele estrutura não somente a nossa relação com o mundo, mas também as nossas relações sociais. Ele é a relação social fundamental. Está, além disso, no centro da visão de mundo que é a nossa [...]” [68]. O trabalho é a roda que gira a economia e a sociedade. Uma vez que o trabalho é colocado no centro da sociedade, essa passa a se identificar como sociedade do trabalho e na qual este é o seu fundamento.

2.1 A invenção moderna do trabalho

Gorz parte da constatação de que historicamente o trabalho nem sempre foi aquilo que ele é hoje. O que nós nos acostumamos a chamar “‘trabalho’ é uma invenção da modernidade. A forma sob a qual o conhecemos, praticamos e o situamos no centro da vida individual e social, foi inventada, e em seguida generalizada com o industrialismo” [73]. A compreensão que dele temos e o lugar que lhe damos, são novos. Ele ocupou outro lugar em outras sociedades [74].

No entanto, para uma visão mais ampla e menos asfixiante da noção de trabalho um olhar de longo prazo pode ser útil. Gorz olha, particularmente, para a realidade e o significado desta realidade que denominamos trabalho entre os gregos.

2.2 A emergência da racionalidade econômica

Para Gorz a idéia moderna de trabalho é contemporânea do capitalismo industrial. A indústria, como modo de produção, ganha relevo apenas no século XVIII. Até aí a “produção material” não estava, em seu conjunto, regida pela racionalidade econômica [99]. Mas, vários fatores foram decisivos para que a economia e, particularmente, o trabalho, fossem submetidos à lógica da racionalidade econômica. Vejamos, a seguir, três desses fatores que contribuíram para evidenciar uma mudança de paradigma.

a) O trabalho como medida. Para Dominique Méda, a “Riqueza das Nações”, de Adam Smith, marca uma ruptura em relação ao contexto intelectual da época e constitui uma inversão na ordem dos valores. Até começos do século XVIII havia uma forte condenação da vontade de enriquecimento, e o trabalho, uma ausência completa nas obras dos intelectuais.

2.3 O trabalho como essência do homem

O século XVIII foi longe na concepção de trabalho ao caracterizá-lo como valor e fator de produção de riqueza e proporcionar, assim, os elementos estruturantes da nova natureza do trabalho, entendido modernamente como emprego. O século XIX, sobretudo, com Hegel e Marx, avança nesta concepção de trabalho, ao elevá-lo à essência mesma do homem. O século XIX termina com a evidência de que o homem não mais se autocompreende sem a referência ao trabalho. A realização do homem moderno depende grandemente da sua vinculação ao trabalho, uma vez que este passa a ser ao mesmo tempo fator de sobrevivência, de humanização, de integração social, de auto-estima e de utilidade social.

2.4 Da libertação no trabalho para a libertação do trabalho: a evolução de Gorz

Dominique Méda, com o intuito de diferenciar os debates sobre o trabalho divide os escritos sobre o trabalho em duas grandes correntes: a corrente essencialista e a corrente historicista [158]. Estas correntes são retomadas posteriormente por Françoise Gollain [159] e Neutzling [160]. As duas correntes têm em comum a referência de que há uma mutação do trabalho e de que a atual crise do trabalho é uma chance para instaurar uma ordem social melhor. Mas as referências comuns terminam por aqui. As diferenças entre as duas correntes se expressam basicamente na leitura diferenciada que fazem da crise e no modelo de cidadão-trabalhador [161].

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